Para analista, grande parte dos estádios brasileiros em obra desconsidera a quantidade do público pós-Copa | Infraestrutura Urbana

Equipamentos Públicos

Jens Alm

Para analista, grande parte dos estádios brasileiros em obra desconsidera a quantidade do público pós-Copa

Por Ubiratan Leal
Edição 22 - Junho/2012

"Quando se constroem estádios para megaeventos, o projeto normalmente se faz com base em exigências externas e a maioria das necessidades internas dos países-sede não está em harmonia com isso"

acervo pessoal

Grande parte dos estádios brasileiros que estão sendo construídos ou reformados para a Copa do Mundo de 2014 desconsidera o público existente em cada cidade e pode ficar abandonada ou subutilizada assim que a competição terminar. Essa é a conclusão do dinamarquês Jens Alm, cientista político e ex-analista do Centro para Esportes e Arquitetura de Copenhague, após estudar os projetos brasileiros para o mundial de futebol.

Para transformar essa impressão pragmática em números, Alm fez parte da equipe do Play the Game - instituto criado para analisar políticas públicas ligadas a esporte. A entidade desenvolveu o World Stadiums InIndex, índice que mede a taxa de ocupação de uma arena esportiva durante o ano. Nesse levantamento, é considerado o público (somando todos os eventos, esportivos ou não) de um estádio em um ano em relação à sua capacidade total. Segundo este índice, nenhuma arena da Copa 2014 estaria entre as 20 primeiras construídas ou reformadas neste século (veja tabela) e apenas uma estaria acima de dez pontos, considerado patamar mínimo de sustentabilidade.

Segundo Alm, nem a ideia de que o público aumentará após a inauguração de uma arena moderna deve ser considerada infalível. "Não há nenhum parâmetro de aumento de público consistente", comenta. "A maioria dos estádios alemães da Copa do Mundo de 2006 teve aumento médio de 28%, mas, na Cidade do Cabo, na África do Sul, o time local tem uma média de menos de quatro mil torcedores por partida", exemplifica. Por isso, para ele, o público atual dos usuários dos estádios deve ser considerado como a demanda para as futuras instalações.

Nesta entrevista, Alm defende que alguns estádios deixados de fora do Mundial de 2014 poderiam ter sido incluídos no programa do torneio, e que outros dificilmente fugirão do destino de novos elefantes brancos. Confira.

Sua pesquisa coloca em dúvida a capacidade dos estádios brasileiros sobreviverem adequadamente após a Copa do Mundo. Quão grande é esse risco?
É difícil fazer uma previsão precisa considerando que faltam dois anos para a Copa do Mundo. Mas como mostra nossa pesquisa, a World Stadiums Index, muitos estádios tiveram problemas graves depois de receberem grandes eventos esportivos internacionais. E, se você não tem um plano de legado claro e realístico para as arenas antes do evento, pode ter sérios problemas de utilização. De qualquer forma, a diferença entre o número atual de espectadores nos jogos de futebol no Brasil, sobretudo nas competições secundárias, e a grande capacidade dos estádios vai representar um desafio significativo para muitas arenas no futuro próximo.

Nesse estudo, vocês criaram um sistema de pontos baseado no público anual que o local recebe em relação à sua capacidade total. Quantos pontos um estádio precisa ter para ser considerado sustentável?
Pensando apenas em "sim" ou "não", ou "bom" e "ruim", estimamos que um estádio com índice abaixo de dez está normalmente enfrentando um grande desafio. E, se o objetivo é criar um legado esportivo real, estádios com índice abaixo de cinco estão certamente com problemas.

Mas que outros elementos podem ser considerados para avaliar a viabilidade do estádio além do público?
Temos consciência que o índice não cria um retrato compreensível do legado e que é também importante incluir perspectivas econômicas. Quanto custou para construir o estádio? Qual o custo anual de manutenção? Quem está pagando pelo uso dele e quanto está pagando? O número de eventos no estádio e a receita por evento é também um indicador importante para ser considerado se quiser criar um retrato preciso do legado.

O estudo da Play the Game menciona dois estádios, o Olímpico (Porto Alegre) e o Engenhão (Rio de Janeiro), como duas estruturas que deveriam estar na Copa. Nos dois casos, vocês sugerem que eles substituíssem os estádios que estão no Mundial (Beira-Rio e Maracanã) ou que essas cidades poderiam ter mais de um estádio no torneio?
Não sugeri substituir os estádios atuais nessas cidades. Mas comentei que o Olímpico e o Engenhão poderiam ser estádios melhores que alguns que estão na Copa pensando do ponto de vista do legado. O Engenhão foi recentemente reformado e está dentro das exigências de capacidade da Fifa. O Olímpico tem um usuário importante como o Grêmio, um clube com uma das melhores médias de público do Brasil. Usar esses dois estádios poderia ser uma opção mais segura.

Na pesquisa, você considera o público total em 2011 para cada clube e compara com a capacidade futura do estádio. Existe algum parâmetro sobre aumento de público com a abertura de estádios mais modernos?
No momento, não há nenhum parâmetro de aumento de público que possa ser usado consistentemente para todos os países. A maioria dos estádios alemães que foram construídos ou renovados para a Copa do Mundo de 2006 abriu em 2005 e, realmente, houve aumento médio de 28% no público de 2003 para 2006. No entanto, o estádio da Cidade do Cabo, na África do Sul, enfrenta grandes problemas desde a Copa de 2010. O operador do estádio quebrou o acordo no meio de 2010 e o time que joga no estádio tem uma média de menos de quatro mil torcedores por partida. Então, um novo estádio não resulta automaticamente em aumento de público.

E como você acha que seria no Brasil?
O Brasil pode ter um aumento, já que a economia brasileira está crescendo e há uma tendência para jogadores brasileiros importantes, como o Neymar, seguirem jogando no País em vez de irem cedo para a Europa. Esse pode ser um fator importante que talvez resulte em aumento de público e facilite o desafio de se fazer um legado positivo.

 

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