Presidente do Conselho Mundial da Água analisa a crise de abastecimento de São Paulo e defende transposição de água de outras bacias | Infraestrutura Urbana

Saneamento

Entrevista - Benedito Braga

Presidente do Conselho Mundial da Água analisa a crise de abastecimento de São Paulo e defende transposição de água de outras bacias

Por Inácio Dieci
Edição 42 - Setembro/2014
 

A cidade de São Paulo e sua região metropolitana enfrentam nos últimos meses um dos piores períodos de estiagem de sua história. O principal impacto foi sentido nos mananciais e reservatórios de água que abastecem milhões de habitantes da capital e seu entorno, que passaram a operar cada dia com menos água.

Ben Braga
"A situação atual é um sinal para as autoridades de que a água é um tema que tem que estar na agenda política"

O Sistema Cantareira, maior e mais importante dos oito sistemas hídricos que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo, operava em julho com aproximadamente 15% de sua capacidade total, o que levou a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) a adotar e propor medidas cuja aceitação não é unânime entre especialistas, como a utilização do chamado "volume morto" dos sistemas Cantareira e Alto Tietê, a transposição de águas de outros rios e bacias para abastecer o Cantareira, além de um bônus tarifário para os consumidores que reduzirem 20% sua média mensal de uso de água.

Benedito Braga, presidente do Conselho Mundial da Água e professor da Universidade de São Paulo, acredita que a médio e longo prazo, só haja duas formas de enfrentar a crise hídrica: transposição de águas de outras bacias para o Sistema Cantareira, ou a redução do consumo. Na entrevista, o especialista também fala sobre os índices de perdas da Sabesp e do custo para a redução destes passivos, e sobre uma agenda estratégica para a gestão de águas no Brasil.

Quais as características do sistema de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP)?
São oito sistemas de abastecimento. O Cantareira é o principal deles e responsável por mais de 50% do fornecimento de água, principalmente para as populações Norte, Oeste e um pouco da região Leste, além da região metropolitana de São Paulo. Depois há o sistema do Alto Tietê, que tem vários reservatórios na região Leste de São Paulo, e atende principalmente esta região. Outro sistema importante é o Guarapiranga, que atende principalmente a região Sul e parte da região Oeste. Aí temos pequenos sistemas, baixo Cotia, alto Cotia, Rio Grande etc.

A crise hídrica atual é focada em algum sistema específico?
O problema que enfrentamos é que estes sistemas foram desenvolvidos ao longo dos últimos 50 anos e exauriram as capacidades locais. O Cantareira já é uma transposição, transpondo as águas do rio Piracicaba para o Alto Tietê, do tipo que temos no São Francisco, no Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. Foi um sistema que já teve alguns estresses não tão severos como este último, mas importantes. Em 2003 e 2004 o sistema chegou a 20% [de sua capacidade] - foi quando a Sabesp iniciou a ideia do bônus [por economia de água]. Naquela época, tivemos a sorte e a felicidade de ter chuvas no final do ano, e todo mundo se esqueceu do problema. Dez anos depois, ele reaparece, de forma mais intensa.

Com qual margem de demanda e oferta o sistema opera tradicionalmente?
O sistema Cantareira foi dimensionado para fazer frente a um período crítico como tivemos em 1952-53. O sistema foi baseado nos dados históricos existentes até então, na década de 1950 e 1960. É um sistema bem dimensionado. Sendo um reservatório muito grande, quando temos um ano muito chuvoso, como foi 1983 ou 2011, o reservatório enche e tem-se a sensação que se pode usá-lo além daquilo que é a entrada dele.

E o comportamento meteorológico dessas décadas ainda é parâmetro para as condições atuais?
O que aconteceu em 2014 foi uma situação meteorológica absolutamente anômala. Para que se tenha uma ideia, em 1952-53 o sistema operava com 40% da vazão média. Esta seca que temos agora está sendo 30% abaixo dos 40% que tivemos naquele período. Os dados indicam que estamos tendo neste ano vazões menores do que as mínimas observadas na série histórica para cada mês. Ou seja, é uma sequência muito pouco provável, pois todos os meses até agora estão abaixo das mínimas registradas historicamente. Do ponto de vista de cálculo de obras hidráulicas, não há dinheiro para construir uma obra que dê proteção para uma situação tão inusitada como essa. O custo desta obra seria proibitivo.

Então, o senhor acredita que não houve erro técnico?
O grande problema não é a falta de dimensionamento, é a falta de um plano de contingência numa situação tão inusitada como essa.

Como é a relação capacidade e consumo no sistema?
O sistema tem sido estressado. Ao longo do tempo houve um aumento da demanda e existem vários planos, o primeiro de 1967, depois em 1983, em 1995, e o último agora em 2013, que é o plano da Macrometrópole, que indica o tipo de infraestrutura necessária para fazer frente à demanda. Do jeito que está agora, estamos no absoluto limite. Hoje temos uma situação absolutamente crítica, mas não quer dizer que ano que vem as coisas vão estar melhor. Se não colocar mais disponibilidade de água na bacia, por outras transposições que estão previstas, como Paraíba do Sul, Juquiá e até do Paranapanema para cá, o sistema vai continuar estressado. Talvez em uma situação não tão grave quanto essa, mas vamos continuar no limite.

Existe uma divergência entre os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, sobre a possibilidade de transposição de parte das águas do Paraíba do Sul para o Sistema Cantareira. O senhor antevê conflitos?
Essa é uma falsa questão, do ponto de vista técnico. Cinco metros cúbicos por segundo, retirados para São Paulo, não afetará em nada o Rio de Janeiro. Não há impacto nenhum do ponto de vista técnico. A questão é política, só. E água é um tema político.

Quais são as alternativas para reduzir a dependência da RMSP dos seus quatro grandes sistemas de abastecimento?
São duas opções: ou se trás mais água, com transposição de águas de outras bacias, ou se reduz o consumo e se passa a economizar mais. Nesta segunda situação, a indústria vai ter que reciclar, vamos ter que fazer reúso de água e mudar o padrão de consumo das pessoas, que terão que ser mais econômicas no uso doméstico da água, e teremos que ter aumento de custo para obtenção de água para irrigação. Cada uma dessas opções tem vantagens e desvantagens. Trazer mais água para o sistema tem a vantagem que não é necessário impor nada a ninguém, mas custa, tem custos associados. Já impor à população, indústria e agricultura restrições de uso, com mecanismos econômicos, aumenta o custo da produção. Tem que fazer um balanço. A situação atual é um sinal para as autoridades de que a água é um tema que tem que estar na agenda política.

 

"O que aconteceu em 2014 foi uma situação meteorológica absolutamente anômala"

 

Há risco de colapso este ano, em São Paulo?
Este ano temos esse volume morto, medida feita para estender a capacidade de fornecimento de água do Cantareira. São 200 milhões de metros cúbicos que estão sendo utilizados, e ainda existe outra reserva, de valor aproximadamente igual a esse, que pode ser utilizado com obras complementares. Com este sistema, nos padrões de consumo atuais, temos condições de chegar até o final de outubro com água, quando se espera que já comecem as chuvas.

O racionamento já deveria ter iniciado, em sua opinião?
Do ponto de vista técnico, não é conveniente o racionamento ou rodízio e, portanto, considero correta a decisão da Sabesp de não fazer o racionamento. O rodízio não é uma boa coisa, porque você corta a água de todo um setor da cidade. Aí a tubulação fica vazia e, neste caso, a pressão da água no terreno é maior do que a pressão da água dentro no tubo. Então a água que está no terreno entra pelos furos nos tubos e sobre esta água não há controle, não sabemos se é suja, se contém carcinogênicos.

O senhor apontou que todos os sistemas estão estressados. Como avaliar a proposta de transferir para outros sistemas de abastecimento parte da demanda abastecida pelo Sistema Cantareira?
É uma situação crítica, e a ideia de interligar os sistemas me parece de bom-senso. Na ocasião em que esta transferência foi feita, os reservatórios do Alto Tietê e do Guarapiranga estavam bem, com capacidade acima de 50% ou 60%, e o Cantareira já estava praticamente no volume morto. Foi uma tentativa de tentar acomodar um sistema que estava mais estressado com um que estava menos estressado, para balancear.

 

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