Engenheiro que atuou na secretaria da Copa 2014, em Curitiba, fala sobre Arena da Baixada | Infraestrutura Urbana

Notícias

Infraestrutura Urbana

Engenheiro que atuou na secretaria da Copa 2014, em Curitiba, fala sobre Arena da Baixada

Paulo Henrique Ambrozewicz critica desrespeito a leis federais, direcionamento de recursos, viés político de obras e questiona benefícios sociais do evento

Maria Emilia Staczuk
25/Março/2014

Paulo Henrique Laporte Ambrozewicz é engenheiro civil, especialista em estruturas, mestre e doutor em engenharia de produção. Também participou do corpo diretivo de diversas instituições de classe, entre elas da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Paraná (Sinduscon/PR). É autor de diversos livros técnicos em sua área de especialização, alguns com publicação pela Editora PINI. Em 2013, atuou como executivo na Secretaria da Copa em Curitiba, desligando-se da função no fim do mesmo ano. Nessa entrevista exclusiva, o profissional fala sobre os bastidores e as polêmicas envolvendo a realização da Copa do Mundo na capital paranaense.

Qual a sua avaliação da realização da Copa do Mundo em Curitiba?
Acredito que já que a Copa do Mundo da FIFA está sendo realizada no Brasil, é conveniente que ela tenha Curitiba como uma das sedes, principalmente pelas liberações de empréstimos ao Estado e ao município para a realização das obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) da Copa. Entretanto, acredito que o modelo adotado na capital paranaense é muito ruim no que diz respeito à nova arena e, talvez por esta razão, o Estado e o município não assumiram como deveriam a realização do evento.

É possível afirmar que o evento tem um pano de fundo político?
Quando pensarmos no Brasil, sim. Já no que diz respeito ao Paraná e, em especial, a Curitiba, acredito que se tornou político quando houve o risco de não se realizar a Copa da FIFA e quando a não conclusão da Arena para o campeonato mundial passou a ser uma realidade. Este receio facilitou a liberação de mais recurso público para a obra privada da nova Arena da Baixada.

Quais os pontos mais polêmicos das exigências da FIFA?
Para atender às obrigações assumidas perante a FIFA, o governo brasileiro implementou diversos dispositivos legais, leis federais com valor nacional e que suplantam as leis brasileiras em muitos casos. Nas cidades-sede existe a necessidade de preparativos para a Fan Fest, chamada como obra temporária, com muitas exigências e paga pelo município. O recurso envolvido na Copa do Mundo da FIFA é brasileiro - federal, estadual e municipal - com obrigação a devolução do empréstimo realizado.

É possível afirmar que os governos locais acabam ficando reféns da FIFA?
Em muitos casos sim, já que o Comitê Organizador Local da FIFA estabelece o que deseja de espaço e as providências a serem tomadas dentro da nova Arena e na cidade. Devemos destacar que a FIFA alega que quem desejou a Copa do Mundo de 2014 foi o Brasil, por isso suas exigências devem ser atendidas, já que fazem parte de um contrato com o governo brasileiro.

Como os recursos que estão sendo aplicados para a Copa do Mundo poderiam ser usados em equipamentos públicos e obras no Paraná?
O Estado e o município teriam condições de usar os recursos destinados à Copa para estabelecer projetos para educação e saúde, por exemplo. O retorno financeiro do campeonato mundial que as pessoas em geral imaginam para comércio local não é a maravilha que se pensa. Estima-se que o Brasil vai receber dois milhões de turistas, sendo 600 mil estrangeiros, 10% do que o Brasil recebeu de turistas estrangeiros no ano passado. Destes, apenas 30 mil devem vir a Curitiba.

Entre as obras que estão em andamento para a Copa do Mundo, a referente à reforma da Arena da Baixada parece ser a mais polêmica. Como você avalia essa obra?
Em minha opinião, o modelo utilizado pelos governo estadual e municipal não foi o adequado. Havia a possibilidade de construir um estádio público, que poderia atender à população, com pista de atletismo, piscina, ginásio e outros equipamentos. O Estado poderia ter utilizado os recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) diretamente e assim resolver o problema da modernização do Ginásio do Tarumã, utilizando o Estádio do Pinheirão, que poderia ser administrado por uma diretoria composta pelos três clubes da capital. É lamentável não terem aproveitado a oportunidade.

Quais os principais problemas?
As várias solicitações de novos empréstimos de grandes montantes de recursos públicos, mediante a apresentação de garantias com validade discutível, é a questão mais polêmica sobre a reforma da Arena da Baixada. Recentemente o Clube Atlético Paranaense (CAP) propôs como garantia o direito de imagem do estádio. Porém, nenhuma entidade bancária libera recurso por meio dessa garantia, e novamente os governos estadual e municipal são avalistas. E se o CAP não pagar, quem paga?

Qual o legado que a Copa do Mundo vai deixar para Curitiba?
O chamado legado que deve ficar para o município de Curitiba vem por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Copa, cujas obras de infraestrutura urbana fazem parte da matriz de responsabilidades da Copa da FIFA 2014. Essas obras são pagas por meio de financiamento para o Estado e para o município, que deverão devolver o crédito recebido.

Você está escrevendo um livro sobre Gestão da Qualidade na Administração Pública. Qual o debate central da publicação?
A publicação tem a finalidade de propor um modelo para tornar o funcionamento da estrutura pública mais eficiente, usando conceitos de qualidade e produtividade. Convivi muito com o poder público executando pontes e viadutos para o governo municipal, estadual e federal e posteriormente ocupando cargo público na área de obras, o que me deu a oportunidade de acompanhar como funciona a gestão pública, sua estrutura funcional, cargos e salários e nomeações e embasar a produção de conteúdo para um livro. A intenção é que até dezembro deste ano o livro seja publicado pela Editora PINI.

Destaques da Loja Pini
Aplicativos